Duas horas depois do reacoplamento, o módulo Lunar é finalmente descartado no espaço e a Apollo 11 está pronta para voltar para casa, mas do mesmo modo que a injeção translunar arremessou a nave em direção à Lua no começo da viagem, um outro empurrão chamado Injeção Transterrestre vai ser necessário para arremessar a nave em direção à Terra.
A manobra exige sincronismo exato e precisão absoluta. A Apollo 11 viaja neste momento a 5800 km/h... mas para escapar da gravidade lunar são necessários 8850 km/h e o empuxo extra virá com a ignição do Módulo de Serviço. Se a ignição falhar os astronautas ficarão perdidos definitivamente no espaço, já que os motores de manobra do Módulo de Comando não têm força suficiente para tirar a nave da amarra gravitacional da Lua.
Durante mais de três horas, enquanto a Apollo 11 ainda orbita a Lua, os controladores de voo e os astronautas repassam todos os procedimentos necessários e conferem por diversas vezes o horário em que a ignição dos foguetes deverá ocorrer. As comunicações são ininterruptas e a tensão volta a subir entre os membros da equipe.
Buzz Aldrin e Neil Armstrong se fotografam instantes depois de deixarem a Lua.
A ignição ocorre após 135 horas e 23 minutos de viagem, à 01h55 do dia 22 de julho. Durante os 150 segundos em que os jatos do Módulo de Serviço são acionados o sistema de guiagem do Módulo de Comando miram uma pequena área vazia no espaço, mas que em 60 horas estará ocupada pela Terra. Essa pequena área é chamada Janela de Reentrada e é por ela que a Apollo 11 entrará novamente na atmosfera terrestre.
Durante dois dias os astronautas viajam mais uma vez como turistas, fazendo apenas pequenas correções de curso. A nave está à mercê das forças da natureza e à medida que a atração gravitacional da Terra se torna mais intensa a velocidade da nave aumenta.
Esta é a segunda parte do especial dos 105 anos de nascimento de Hergè, o criador de Tintim.
Os álbuns
O sucesso é sempre fascinante... o de Hergé foi fruto de grande evolução de técnica e de trabalho, de intuição e de busca pessoal. Tintim é o herói de grandes aventuras, onde a mais célebre, Explorando a Lua, teve mais de cinco milhões de exemplares vendidos no mundo todo. Até ao final da sua vida, Hergé foi sempre um homem modesto e discreto, pouco conhecido pelo grande público... Georges Remi escondia-se atrás de Hergé que, por sua vez, se escondia por trás de Tintim. A seguir os mais importantes albuns de Tintim:
Tintim no País dos Sovietes (Les Aventures de Tintin, reporter du Petit Vingtième, au pays des Soviets - 1929)
Acompanhado do seu cão Milú, um novo repórter entra num comboio e parte com destino a Moscou. Para Tintim, é o início de uma grande aventura... para Hergé é o verdadeiro começo da sua carreira. Les Aventures de Tintin, reporter du Petit Vingtième au pays des Soviets foi publicado sob o formato de álbum em 1930, depois do sicesso conquistado nas páginas do caderno infantil do jornal aonde Hergé trabalhava. É nesse ano que marca o nascimento de um mito que está ainda muito longe de morrer e dos primeiros sinais de um longo confronto entre a ficção e a realidade... é o começo de um longo sucesso que continuaria a crescer ao longo dos anos.
Tintim na África (Tintim au Congo - 1931)
Com a grande popularidade conquistada com a aventura na Rússia, Tintim parte em busca de novas emoções e é para o Congo Belga que ele acaba aportando. Tintim na África é o reflexo de uma época colonialista e paternalista... antes da independência do país africano, que antes de se chamar novamente Congo, como hoje em dia, se chamou Zaire. Com relação ao traço... grande evolução! Chegando perto do Tintim que conhecemos hoje.
Este álbum enfrenta problemas de aceitação nos os dias de hoje, pois é acusado de racista e elitista. Como fâ de Tintim, creio que a melhor forma de classificá-lo é observar o contexto de quando Hergè o criou... e assim perceber a historicidade contida e usá-lo como testemunho de como o continente africano era visto nos tempos do fim do imperialismo europeu.
Tintim na América (1932)
Em Tintim na América, o nosso herói confirma mais uma vez a sua vocação de "anti-bandidos", ao se opôr ao mafioso Al Capone e aos gangsters de Chicago. Hergé testemunha já uma visão generosa do Mundo, ao condenar, por exemplo, certas atitudes dos Brancos por oposição aos Índios Peles-Vermelhas.
Os Charutos do Faraó (Les cigares du pharaon - 1934)
Em Os Charutos do Faraó, Tintim encontra-se envolvido, por mero acaso, num tráfico de entorpecentes que o leva até à Índia. Entretanto, encontra Dupond e Dupont, dois desastrados polícias que se vão afirmando no universo de Tintim... Um personagem interessante, o Doutor Sarcófago, aparece apenas nessa aventura. Uma pena...
O Loto Azul (Le lótus bleu - 1936)
Perseguindo os traficantes até à China, Tintim encontrará, em O Loto Azul, um jovem chinês, órfão, de nome Tchang... e uma grande amizade começa. Por outro lado, Tintim reencontrará o produtor de cinema Rastapopoulos, que vai se tornando seu principla inimigo... voltando a encontrá-lo outras vezes. Hergé, cuja técnica narrativa e gráfica não param de se afirmar, dá um especial relevo ao cenário e à documentação. A sua preocupação com a veracidade confirma-se e é com grande detalhe que ele relata no álbum a política expansionista praticada pelo Japão, que ocupava na época a China.
O Ídolo Roubado (L’oreille cassée - 1937)
O Ídolo Roubado (literalmente traduzindo “A Orelha Quebrada”) é uma aventura cheia de fugas e de perseguições. Tintim embarca para San Teodoro com o plano de recuperar um ídolo que lhe foi roubado do museu... e encontra na América do Sul momentos de grande agitação militar e econômica: a guerra do Gran Chaco acontecia!
A Ilha Negra (L’ile noire - 1938)
Através da imprensa, Hergé ouviu falar de um tráfico de notas falsas no Reino Unido. Foi então em A Ilha Negra que adaptou esses eventos no universo de Tintim. O nosso herói dirige-se para a Escócia onde encontra, após ter escutado lendas de velhos escoceses, sobre um monstro implacável e violento... um gorila que assombra um castelo abandonado numa ilha rochosa... ilha essa que servia de base para os falsificadores.
O Cetro de Ottokar (Le sceptre d´Ottokar - 1939)
País imaginário, a Sildávia serve de cenário ao episódio seguinte: O Cetro de Ottokar. É nesse pequeno reino da Europa do Leste que Tintim encontrará pela primeira vez a famosa soprano lírica Bianca Castafiore... antes de salvar a monarquia sildava, vítima de uma conspiração, uma alusão ao Anschluss e a Segunda Guerra Mundial que estava presetes a começar. Com as imposições da ocupação alemã na Bélgica, em 1940, e a ameaça da censura na imprensa conduziram Hergé a disfarçar mais a história da atualidade do momento e das angústias da guerra.
O Caranguejo das Tenazes de Ouro (Le crabe aux pinces d’or - 1941)
O Caranguejo das tenazes de Ouro leva novamente Tintim à África do Norte, onde tenta impedir os planos de um bando de malfeitores que dissimulavam ópio em latas de caranguejo. É graças a esta trama que Tintim conhece aquele que viria a se tornar o seu principal companheiro de aventuras: o capitão Haddock... que havia sido aprisionado por seus amotinados marinheiros liderados por Allan... e libertado por Tintim, o que levaria a uma grande amizade. Allan é outro interessante personagem que voltaria a aparecer algumas vezes ainda.
A Estrela Misteriosa (l’etoile mystérieuse - 1942)
Primeiro álbum publicado a cores, A Estrela misteriosa tem por base a queda de um meteorito que contém um metal inteiramente desconhecido até à altura, no Oceano Ártico. Tintim e Haddock fazem parte da expedição científica que, ao preço de uma alucinante corrida contra o tempo com certos industriais sem escrúpulos, o tenta recuperar. Interessante notar a mescla de simbolismos que Hergé recheou a história na primeira parte, traçando paralelos com o fim do mundo e a Guerra Mundial que não tinha perspectivas de acabar tão cedo.
O Segredo do Licorne (Le secret de la licorne - 1943) e Tesouro de Rachkam o Terrível (Le trésor de Rackham Le Rouge - 1944)
Em O Segredo do Licorne e no Tesouro de Rachkam o Terrível, a continuação, Tintim acompanha o capitão Haddock na busca do tesouro seu glorioso antepassado, o cavaleiro Sir Francis Hadoque. Inventor de um pequeno submarino em forma de tubarão, Trifólio Girassol aparece e viria a contribuir de maneira decisiva para a descoberta do tesouro e, posteriormente, a oferecer ao capitão o castelo do seu antepassado: o Castelo de Moulinsart, aonde passariam a morar Tintim, Haddock e Girassol, que se tornaria personagem fixo e muito querido por todos.
As Sete Bolas de Cristal (Les sept boules de cristal - 1948)
Em As Sete Bolas de Cristal, sete cientistas caem misteriosamente em estado de letargia depois de voltarem de uma expedição nos Andes. E quando desaparece também o professor Girassol, que fez parte da expedição, nossos heróis partem à sua procura. O sobrenatural e a conspiração de inimigos que buscam os segredos das Sete Bolas de Cristal criam o clímax desta trama, que continuaria no álbum seguinte.
O Templo do Sol (Le temple du soleil - 1949)
É no Peru que O Templo do Sol se desenrola e onde Tintim e Haddock encontram o professor Girassol, aprisionado pelos últimos Incas ainda existentes... e juntos conseguirão salvar as vítimas da maldição que os paralisava. Esta aventura é a conclusão de As Sete Bolas de Cristal, onde Tintim se passa por um deus e á salvo da morte, por sua astúcia e sagacidade.
O País do Ouro Negro (Tintin au pays de l´or noir - 1950)
Pelo mundo inteiro, motores de automóveis não param de explodir: a gasolina deve ser falsificada! Uma crise petroleira ameaça o Mundo... no Médio Oriente, o xeique Bab El Ehr tenta destronar Mohammed Ben Kalish Ezab... e esse conflito local pode a qualquer momento fazer estourar a guerra. É o suficiente para levar Tintim ao País do Ouro Negro.
Rumo à Lua (Ojectif Lune - 1953) e Explorando a Lua (On a marche sur la Lune - 1954)
Rumo à Lua relata as inúmeras confusões que são submetidos os nossos heróis na preparação de uma expedição lunar organizada pelo professor Girassol a partir de solo sildavo. Explorando a Lua descreve a primeira viagem no espaço e a exploração do nosso satélite por Tintim e seus amigos, quinze anos antes dos americanos Amstrong e Aldrin chegarem lá! Uma antecipação extraordinariamente bem documentada e executada que mostram o cuidado e o extremo detalhismo dados à história.
O Caso Girassol (L’affaire Tournesol - 1956)
Esta nova aventura leva de novo Tintim à Sildávia e à Bordúria, desta vez num clima de guerra fria. Inventor de um dispositivo de ultra-sons, o professor Girassol é raptado por espiões. É também nesta história que aparece o segurador da Mondass, Serafim Lampião, que viria mais tarde a revelar-se um verdadeiro incômodo. Fugas, perseguições, reencontros... quando afinal todo a trama parece desenrolar-se a partir de um simples guarda-chuva... é sem dúvida o episódio mais policial de toda a série.
Perdidos no Mar (Coke en Stock - 1958)
No álbum Perdidos no Mar (literalmente traduzindo, “carvão no porão”), vemos que o tráfico de escravos ainda existia em meados do século XX. Desde inúmeras aventuras no Oriente até um impressionante combate naval, Tintim viria a conseguir desmantelar o odioso comércio clandestino organizado mais uma vez pelo sinistro Rastapopoulos.
Tintim no Tibete (Tintin au Tibet - 1960)
Um avião onde viajava o jovem amigo chinês de Tintim, Tchang, dirigia-se para a Europa quando caiu violentamente no Himalaia. Tintim no Tibete é uma pura história de amizade, sem um único momento de perseguição, aonde apenas descreve o desespero de Tintim para encontrar o seu amigo. Esta história simples... que rompe com a rivalidade mocinho/bandido das aventuras anteriores... mostra que a fidelidade e a esperança são capazes de vencer qualquer obstáculo... e mitos como o do "abominável homem-das-neves", que por vezes são fruto da nossa ignorância. É de longe a mais pessoal obra de Hergè, que ainda iremos conversar aqui no Blog.
As Jóias da Catasfiore (Les bijoux de la Castafiore - 1963)
Em As Jóias da Castafiore os principais protagonistas da série encontram-se em Moulinsart para aí viver uma verdadeira comédia clássica. Virando as costas à aventura para se virar para a dificuldade que é a comunicação entre as pessoas, este álbum é uma verdadeira exceção no universo de Tintim, repleto de mal-entendidos e de situações curiosíssimas... que se passam apenas em um único lugar, o Castelo Moulinsart... uma novidade para a série, que é caracterizada por sempre se aventurar em algum dos quatro cantos do mundo.
Vôo 714 para Sydney (Vol 714 pour Sydney - 1968)
Vôo 714 para Sydney é sobre uma viagem interrompida... um desvio que complica tudo... e a caminhada de Tintim e seus amigos pelo desconhecido, num mundo irreal animado por fenômenos telepáticos, o contato com extraterrestres e a saída de um sonho... mas foi tudo mesmo um sonho?
Tintim e os Pícaros (Tintin et les pícaros - 1976)
Com um tema de vingança e prisioneiros sob um fundo de guerrilha, Tintim e os Pícaros marca a volta de Tintim a San Teodoro, o país de O Ídolo Roubado. O álbum de Hergé faz imaginar que neste país tudo não passa de um grande carnaval... até a revolução que se desenrola. País que tem muita inspiração com o nosso Rio de Janeiro.
Tintim e a Arte-Alfa (Tintin et l’Alph-Art - 1986)
Ainda inacabado quando da morte em 1983, em Tintin et l’Alph-Art Hergé pensava em escrever sobre o mundo das seitas religiosas e levar Tintim a um universo que o afetava diretamente... o da Arte Contemporânea. Se este álbum póstumo não serve para mostrar os detalhes da trama desta história inacabada, é, por outro lado, o testemunho do estado puro do extraordinário talento narrativo e gráfico do pai de Tintim. Nesta aventura, nós leitores, tal como Tintim, infelizmente ficamos sem saber o que viria do lápis de Hergé. Só saiu no Brasil em 2008.
Ainda tem o álbum Tintim e o lago dos tubarões que é uma adaptação da animação de 1972 usando a mesma arte da produção.
Personagens principais:
Tintim - Sem família conhecida, exerce a profissão de repórter. Na verdade, podemos considerá-lo mais um aventureiro ou detetive. Apesar de se apresentar sempre disponível, Tintim nunca parte em busca da aventura, sendo ela a se colocar à sua frente de uma maneira puramente acidental. Corajoso, não hesita em enfrentar seus rivais, sempre em defesa dos mais fracos e oprimidos. Engenhoso e inteligente, Tintim é, pela sua modéstia e pelas suas ações, o contrário de um super-herói... é apenas alguém que luta por justiça. Cena inesquecível: sua luta por encontrar Tchang em Tintim do Tibete.
Milú - Fox-terrier dotado de tom de branco fora do normal, é o primeiro companheiro de Tintim, seu ajudante e, no início, o seu único interlocutor. Milú, ao contrário do seu dono, faz certas bobagens, não por vontade própria, mas por curiosidade, gula ou mesmo pelo seu instinto. Muito fiel a Tintim, segue-o para todo o lado... e o salva de inúmeras armadilhas. Cena inesquecível: o seu aconselhamento em Tintim no Tibete com as suas duas consciências!
Capitão Haddock - Ex-oficial da marinha, acabou por preferir a vida de "nobre"... e dono do castelo Moulinsart. Junta-se ao seu jovem amigo Tintim nas suas aventuras, normalmente contra a sua vontade. Haddock aparece nas aventuras de Tintim de uma maneira bem curiosa... é inocente, impulsivo, generoso, zangado e expansivo no que diz. O seu gosto pelo whisky e o rum é bem visível, tal como são célebres as suas injúrias: palavras difíceis, desprovidas da mínima grosseria, das quais somente a sonoridade é agressiva. Tem papel paternalista em relação a Tintim, adotando-o muitas vezes como o filho que não teve. Cena inesquecível: partindo para cima dos nomades que deram um tiro em sua garrafa de rum em O Caranguejo das Tenazes de Ouro.
Dupond e Dupont - Polícias de profissão, obedecem cegamente às ordens. Ridículos, mas pretensiosos, despistados e desajeitados, eles são mais infantis que maliciosos. Apesar da semelhança extraordinária, não são nem gêmeos e muito menos irmãos... aonde só a forma do bigode os difere: Dupond com “d” tem o bigode reto, enquanto que Dupont com “t” tem o bigode encaracolado nas pontas, como explicava o próprio Hergé. A expressão preferida de ambos, "Direi mesmo mais...", é o indício de que alguma trapalhada vai acontecer... e as gafes e as encrencas sempre acontecem em dobro! Cena inesquecível: os dois andando divertidamente na Lua em Explorando a Lua.
Tchang - Personagem da vida real, é baseado no amigo chinês de Hergé, Tchang-Tchong-Jen, que deu inspiração para a criação de O Lóto Azul. Tchang é o fiel amigo de Tintim em sua visita à China e parceiro na luta contra os mafiosos de Xangai que inoculavam suas vítimas com um estranho veneno da loucura. Tchang volta a aparecer muitos anos depois em Tintim no Tibete, quando é vítima do abominável homem das neves, salvo é claro por seu bravo amigo Tintim. Cena inesquecível: o encontro de Tchang e Tintim na gruta do Yeti em Tintim no Tibete.
Trifólio Girassol - Muito distraído, surdo e intuitivo ao extremo, Girassol estabelece, através do seu pêndulo, conexões com o real de forma inesperada e tresloucada. Inventor de renome, chega mesmo a construir um foguete espacial, que levará Tintim à Lua. Mais tarde, depois de ter se dedicado à criação de um aparelho de ultrassons, Trifólio decide dedicar-se à horticultura e à jardinagem. Cena inesquecível: ele dormindo escondido dentro de um bote salva vidas abraçado a uma caixa de biscoitos em O Tesouro de Rackan, o Terrível.
Nestor - Mordomo no castelo de Moulinsart desde os tempos dos irmãos Pardal. Eficaz, discreto e dotado de uma paciência fora de série, Nestor parece ter só qualidades. Deste modo, conquistou a confiança e o afeto de todos. Cena inesquecível: quando Milú, perseguindo o gato do castelo, passa entre as pernas de Nestor, fazendo com que execute malabarismos para equilibrar a bandeja, sem deixar que nada caia, em As jóias da Castafiore.
Serafim Lampião - Lampião é o protótipo do "chato". Segurador da Mondass, é um verdadeiro inoportuno. No pior dos casos, faz-se acompanhar da sua turma sem sequer se dar ao trabalho de avisar. Aparece sempre nos piores momentos, mas não se pode dizer que esteja diretamente relacionado com o curso dos acontecimentos. Apresenta constantemente um humor que só faz rir a ele próprio e apresenta geralmente uma curiosa vulgaridade que envergonha. Cena inesquecível: sua participação em Tintim e os Pícaros.
Bianca Castafiore - Soprano lírica pertencente ao Scala de Milão, tem um caráter curioso e caprichoso, digno de uma diva. A sua vítima habitual é o pobre capitão Haddock, cujo nome ela é incapaz de pronunciar corretamente. É famosa por cantar a música a Ária das Jóias, extraída de Fausto, de Gounod, onde ela "se ri de se ver tão bela ao espelho"... Cena inesquecível: Se insinuando para o Capitão Haddock em O Caso Girassol.
Roberto Rastapopoulos - Gênio do mal, Roberto Rastapopoulos encontrou em Tintim um inimigo de peso que o impede de concretizar os seus planos mais maquiavélicos. Produtor de cinema de um famoso estudio, tornou-se Grande Mestre de uma organização oculta de tráfico de entorpecentes, cujas ramificações invadiram todo o planeta. Viria a cair no ridículo, mais tarde, mascarado de cowboy... Cena inesquecível: as cartas mandadas para Allan em Os Charutos do Faraó.
Acompanho Tintim já há 24 anos, e logo depois de ter ganho de Douglas Alves Ferreira, o Doda, o álbum O Lago dos Tubarões descobri na biblioteca da Av. Benedito Calixto, aonde geralmente ia nas tardes antes das provas para estudar mais calmamente, todos os álbuns do meu mais novo personagem querido, onde pude ler e reler as aventuras até entrar na faculdade... e depois, quando consegui alguns álbuns nos sebos da vida. Mesmo descobrindo anos depois que todos os personagens criados representam momentos da vida e da personalidade de Hergé, o que fica é que seu talento e seu perfeccionismo... que quase o levou à loucura, diga-se... deram a nós alguns dos melhores momentos das histórias de aventura, seja literárias, seja em quadrinhos, na mídia que for... e ouso dizer que, como Shakespeare, consegiu traçar todas as tramas possíveis deste estilo. Muito do que Hergé passou para que sua criação fosse o que é hoje irei comentar em breve aqui no blog... já que foi estudo da minha tese de mestrado sobre o mito do herói... tese essa inacabada.
Então... feliz aniversário, Georges Remi! Ou Hergè... que é como será lembrado para toda a eternidade!
Paz e bem a todos.
Paulo.
“Hergé influenciou a minha obra tal como Disney. Para mim, Hergé foi mais do que um desenhista de HQ. Ele tinha uma forte dimensão política e satírica."
Andy Warhol
"Hergé é um dos gênios do século. Poeta e contador de histórias, ele é o criador de uma obra universal. Então, quando se fala dos quadrinhos como uma Arte menor, o meu sangue dá uma volta."
Como eu disse alguns anos atrás, a paixão pelos quadrinhos nasceu do meu pai, que comprava periodicamente dos mais diversos personagens, principalmente Batman, o meu favorito entre todos, Capitão América e os X-Men, que nos anos oitenta insistíamos de chamar de “xis mein”... pois vivíamos ainda num mundo gigantescamente formado pelas distâncias pré-internet. E eu me lembro muito bem daquele dia de julho de 1988. Eu estava na casa de meu amigo Douglas Alves Ferreira, o Doda, jogando bola na porta da garagem... ele, um desenhista que vi como poucos, sempre tocava na mesma tecla: Frank Miller era melhor que John Byrne. Byrne era meu espelho, caso eu tivesse a paciência de sentar numa cadeira por mais de 10 horas diárias... paciência que Jó invejaria e que Doda tinha de sobra. Mas eu sempre gostei de Frank Miller, principalmente depois de ter lido no hoje distante março de 1987 O Cavaleiro das Trevas, que até hoje considero a melhor obra de quadrinhos que já vi e li... mas esse não era o ponto. O ponto é que eu gostava do estilo “limpo” de Byrne. E nesse dia, o Doda disse: “Então preciso te mostrar algo...” E de dentro da garagem, onde ficavam todos os seus quadrinhos, e que não eram poucos, ele me mostrou um álbum de Tintim... Tintim e o lago dos tubarões. Gostei tanto que devo ter transparecido, já que o Doda me deu aquela relíquia naquele dia!
O estilo de desenho daquele álbum de Tintim é que se destacava... a linha clara... muito comum no início do século passado, aonde Hergé foi o seu mais precioso e talentoso representante. E sua criação a mais apaixonante e corajosa de todos os heróis já criados. E aqui a minha homenagem a esse homem que fez conhecer os quatro cantos do mundo (e até a Lua!) através das suas histórias e que faria 105 anos hoje.
Hergé criou Tintim (e vamos deixar claro aqui que o nome do nosso amigo se pronuncia “tãntãm”) em 1929, na história Tintim no país dos Sovietes, o primeiro de 23 álbuns gráficos em quadrinhos, traduzidos em mais 50 idiomas. Já foram vendidos no mundo todo mais de 200 milhões de exemplares dos álbuns do corajoso jornalista e do cachorro Milú, seu fiel companheiro. Mas vamos falar um pouco sobre o aniversariante de hoje...
Hergè: tímido e quieto ao extremo. Talvez sua genialidade venha dessa combinação.
Ainda criança, o pequeno Georges Remi recebia dos pais papel e lápis como forma de mantê-lo ocupado quando as visitas apareciam em sua casa, assim conseguiam algum sossego daquele menino estripuliento. E isso foi preponderante na vida de Georges, pois na sua infância e adolescência enchia todo o espaço livre de seus cadernos de escola com figuras, desenhos e pequenas histórias. Naquela época já imaginava que um dia iria se dedicar ao desenho como profissão, transformando-se em um dos artistas mais consagrados de todos os tempos através o pseudônimo Hergé, a transcrição literal das iniciais de Remi, Georges, com o qual se tornaria mundialmente conhecido.
O início de sua vida como desenhista começou na Federação de Escoteiros Católicos da Bélgica, aonde entrou quando criança e que representou seu maior interesse enquanto crescia... e foi nesse ambiente teve a possibilidade de fazer várias viagens, conhecendo países como Espanha, Áustria, Suíça e Itália, colhendo informações que depois utilizaria em suas histórias em quadrinhos. Seu primeiro personagem fixo, como não podia deixar de ser, nasceu ligado aos escoteiros, aparecendo em 1926 na revista Le boy-scout (depois, Le boy-scout belge): Totor, C. P. des Hannetons. Nessa mesma época, Hergé já havia começado a colaborar no jornal Le vingtième Siècle (O Século XX), periódico dirigido com mão de ferro pelo padre Norbert Wallez com idealismo clerical e nacionalista. Nesse jornal, depois de cumprir o serviço militar, Hergè assumiu várias funções, de fotógrafo a ilustrador de páginas especiais, aos poucos se envolvendo em todas as atividades e tornando-se homem de confiança de seu diretor. Assim, quando este pensou em aumentar o número de leitores colocando um suplemento juvenil, foi Hergé que foi convidado pra coordenar esse novo projeto. E desta forma... com o trabalho quase solitário daquele jovem de pouco mais de 21 anos... surgiu no início de novembro de 1928 o primeiro número de Le petit vingtième (O Pequeno Vigésimo).
Nas primeiras edições do jornal, Hergé ilustrava histórias escritas por outros autores, mas isso o acabou sendo desestimulado, e passou a desenvolver um personagem próprio. Buscando inspiração no seu primeiro personagem, o escoteiro Totor, Hergé mudou um pouquinho o nome e lhe deu uma profissão... uma que estava mais uma vez ligada diretamente a ele: a de jornalista. Para dar uma característica marcante, colocou nele um topete e lhe deu um amigo inseparável, um fox-terrier chamado Millou, que em português se chamaria Milu (millou significa "mais branco que o branco"). E assim, nas páginas do número 11 do Le petit vingtième, nascia, em 10 de janeiro de 1929 o jovem aventureiro Tintim, cujas aventuras se tornariam um grande sucesso em toda a Europa.
Totor: não, você não está vendo errado: Hergè só trocou o nome e a roupa... nasceu Tintim!
Desde o seu início, Tintim marcou por ser inquieto... e aí reside grande parte de seu sucesso. Já na sua primeira aventura, Tintin au pays des soviets, percorre o maior país do mundo e adquire grande popularidade, principalmente por que se tratava de um país que se envolvia no mistério do fechado regime comunista. E ao terminar a história, em 1930, num golpe publicitário pouco comum na época, resolve simular sua volta e a de Tintim para a Bélgica. E qual não foi sua surpresa ao se deparar com uma multidão de admiradores que o estava esperando na estação de trem Gare du Nord, em Bruxelas, para homenageá-lo... juntamente com um menino que havia contratado para se fazer passar pelo jovem repórter. Daí em diante, a popularidade de nosso jovem herói e seu cachorrinho foi crescendo a medida em que as histórias se sucediam: Tintin au Congo (1931), Tintin en Amérique (1932), Les cigares du pharaon (1934), Le lótus bleu (1936), L’oreille cassée (1937), L’ile noire (1938), Le sceptre d´Ottokar (1939), Le crabe aux pinces d’or (1941), l’etoile mystérieuse (1942), Le secret de la licorne (1943), Le trésor de Rackham Le Rouge (1944), Les sept boules de cristal (1948), Le temple du soleil (1949), Tintin au pays de l´or noir (1950), Ojectif Lune (1953), On a marche sur la Lune (1954), L’affaire Tournesol (1956), Coke en Stock (1958), Tintin au Tibet (1960), Les bijoux de la Castafiore (1963), Vol 714 pour Sydney (1968), Tintin et les pícaros (1979), Tintin et l’Alph-Art (obra póstuma, incompleta).
Os primeiros desenhos de Tintim: um personagem gordinho e quieto, bem diferente do que conhecemos.
Em poucas histórias Tintim se aventurou na própria Bélgica, buscando sempre outras terras e outros horizontes. É claro que no início essa relação com outros países era excessivamente marcada por uma visão eurocêntrica sobre povos e regiões menos civilizadas... fruto do pouco conhecimento de Hergè sobre outras culturas e de sua inexperiência como narrador. Tanto é assim que seu primeiro álbum, Tintin aux pays des soviets, é considerado pelo próprio como um exemplo de como não se escrever sobre o que pouco se conhece, pois se trata no intimo apenas de um manifesto de reprovação pública à União Soviética e seu regime político, constituindo uma obra repleta de clichês e uma visão corrompida sobre a realidade da sociedade russa. Suas obras seguintes, Tintin au Congo, Tintin en Amérique e Les cigares du pharaon não são diferentes... embora menos alienadas... aonde ainda prevalece a visão colonialista da então potência européia... e somente a partir da quinta aventura do herói as coisas começam a mudar. Aos poucos, Hergé vai deixando de lado a visão estereotipada que dominou suas primeiras obras e passa a dedicar maior atenção na elaboração das histórias e na pesquisa sobre povos e lugares onde as aventuras de Tintim iriam acontecer. As razões dessa mudança são envoltas num mistério criado pelo próprio Hergè em suas muitas entrevistas. Segundo ele, ao anunciar o lançamento de O Loto Azul (Le lótus bleu), recebeu do Padre Gosset, capelão da Universidade de Louvain, uma carta na qual dizia para ser cuidadoso nas informações que iria colocar sobre a China em seu trabalho, aconselhando a fazer uma pesquisa sobre o país. Por intermédio do Padre Gosset, Hergé entrou em contato com Tchang Tchong Jen, que naquela época era estudante na Academia de Belas Artes de Bruxelas... a simpatia mútua ajudou o desenhista belga a entender as características peculiares e a incomparável riqueza da civilização chinesa, algo que ele sequer imaginava na época. A influência desse encontro em seu trabalho foi fartamente reconhecida por Hergé que comentou em uma de suas entrevistas: “Foi em O Loto Azul que eu descobri um mundo novo. Para mim, assim como para todos os outros, a China era povoada por gente de olhos puxados, de pessoas muito cruéis que se alimentavam dos ninhos das andorinhas, portavam rabos de cavalo e atiravam as criancinhas nos rios... Eu havia sido influenciado pelas imagens das narrativas da guerra dos Boxers, onde a ênfase era sempre nas crueldades dos amarelos, e isso me havia marcado fortemente (...) Portanto, eu descobri uma nova civilização que ignorava completamente e, ao mesmo tempo, tomei consciência de uma espécie de responsabilidade. E a partir desse momento que eu comecei a pesquisar a documentação, a me interessar verdadeiramente pelos países aos quais enviava Tintim”.
Tintim e Milu: amigos inseparáveis!
Outro ponto da influência do jovem chinês no trabalho de Hergé está presente na própria obra: é dele o nome dado ao personagem que Tintim encontra em O Loto Azul... e que se tornaria seu amigo e que apenas reencontraria 24 anos depois, no álbum Tintim no Tibete. De uma certa forma, a relação fictícia de Tintim com o personagem Tchang contrapõe o desencontro que na vida real cercou o relacionamento de Hergè com o artista asiático... pois perderam o contato quando Tchang voltou para a China, e só se reencontrariam pessoalmente em 1981, quando retornou à Bélgica para uma visita que durou vários meses. O reencontro dos dois amigos foi cercado por um grande interesse da mídia e dos fans: ao chegar no aeroporto de Bruxelas, Tchang foi recebido como um verdadeiro herói popular, com direito a tapete vermelho e discursos de boas vindas, uma clara mostra de como Tintim e seu criador haviam conquistado o coração de seus leitores. O encontro também foi providencial, já que o câncer já se mostrava avançado em Hergé, que mostrava toda a sua dificuldade em participar de todas as cerimonias.
Voltando... o caminho da glória se abriu para Hergé a cada nova aventura de seu pequeno herói. A partir de 1932, a coletânea das páginas impressas no Le petit vingtième passaram a ser publicadas em álbuns pela Editions Casterman, ampliando a popularidade das aventuras de Tintim nos países de língua francesa e no resto do mundo, em tiragens cada vez mais crescentes... atingindo um milhão de exemplares em 1960... e contínuas reedições. E a cada reedição, novos elementos eram acrescentados nos álbuns e estes redesenhados pelo autor e seus colaboradores, levando aos leitores um exemplar cheio de novidades.
Em 1946, após algumas dificuldades sofridas por Hergé no pós-guerra (como a HQ era publicada com regularidade em um periódico pró-nazista durante a ocupação alemã da Bélgica na Segunda Guerra Mundial, Hergé foi acusado de colaboracionista do regime e passou por uma curta estadia na prisão), o Journal de Tintin, foi publicado na Bélgica pela Editions du Lombard, ao qual logo se seguiria uma edição francesa, pela Editions Dargaud, dois anos depois... nas duas edições dessa revista, floresceu a chamada Escola de Bruxelas de quadrinhos, na qual brilharam os nomes de Edgar-Pierre Jacobs (Blake et Mortimer), Paul Cuvelier (Corentin), Jacques Laudy (Hassan e Kadour), Jacques Martin (Alix) e Jean Graton (Michel Vaillant), entre outros... todos adeptos da linha clara e alguns deles, como no caso de Jacobs, inspiradíssimos do traço de Hergè.
Em 1947, O Caranguejo das Tenazes de Ouro (Le crabe aux pinces d’or) estreou no cinema, em uma produção tosca realizada por Claude Misonne... e somente a partir da década de 50 é que Tintim apareceria nas telas de cinema em grande estilo, quando Jean-Pierre Talbot o personifica no longa metragem Le mystère de la toison d’or, dirigido por Jean-Jacques Vierne e André Barret, e a continuação, de 1964, em Tintin et les Oranges Bleues, realizado por Philippe Condroyer, com Jean-Pierre Talbot mais uma vez perfeito no papel título e Jean Bouise inesquecível como Capitão Haddock. Em 1959 inicia-se a produção de desenhos animados para a televisão; posteriormente, dois desenhos animados em longa metragem serão produzidos para as telas cinematográficas, O Templo do Sol (Le temple du soleil - 1969) e o inédito Tintim e o Lago dos Tubarões (Tintin et le lac aux requins - 1972).
Fotos e o cartaz que mostra a detalhada e bem cuidada produção de Tintin et les Oranges Bleues, de 1964.
O sucesso das aventuras do pequeno jornalista é inegável, mas as razões talvez não se devam somente ao protagonista em si, mas também ao ritmo dado pelo autor nas aventuras e a variada galeria de personagens que cercavam Tintim... que em muitos momentos das aventuras acabava sendo colocado em segundo plano por seus companheiros, tornando-se como que uma espécie de coadjuvante das piadas e peripécias protagonizadas pelos demais. Isto é evidente a começar por seu mais próximo amigo, o Capitão Haddock, que surge na aventura O Caranguejo das Tenazes de Ouro e que iria apaixonar milhões de leitores de Tintin com sua série aparentemente interminável de impropérios, sua luta contra o álcool e suas pretensões em se tornar um lorde inglês. O mesmo brilho é também encontrado em outros personagens, tanto nos parceiros do herói como em seus adversários: o Professor Girassol, estereótipo do gênio... desatento a pequenos detalhes e com problemas de audição... Bianca Castafiore, a simpática cantora de ópera apaixonada por Haddock... os detetives Dupont e Dupond, amigos trapalhões de Tintim criados como sátira aos policiais ingleses... Tchang, o simpático chinesinho inspirado pelo amigo do autor... o importuno Serafim Lampião... o diabólico Rastapopoulos, principal inimigo de Tintin, juntamente com seu não menos ameaçador braço direito, Allan Thompson... e o General Alcazar, inspirado nos ditadores latino-americanos... entre tantos outros. O Mais curioso é que Hergè sempre se colocava nas histórias em pequenas participações, no mais puro momento Alfred Hitchcock. Fato esse mantido nos desenhos da Nelvana dos anos 90... se você prestar atenção verá Hergè em todos os episódios!
Os marcantes personagens de Hergè: cada um tinha um pouco de seu criador.
Todo esse universo de personagens dá à criação maior de Hergé um caráter multifacetado, que representa talvez sua maior riqueza: ao mesmo tempo em que os desenhos tendem a caricatura, as histórias são cercadas de extremo realismo, já que o Hergé representava com exatidão o movimento dos corpos, peças de vestuário, aviões, automóveis, locais, etc., aos quais agrega uma história em que os elementos humorísticos se mesclam com temas sérios como guerra, escravidão, amizade, máfia, tráfico de drogas, espionagem, liberdade e coragem, com toda a grande sutileza que apaixonou os leitores.
Poucas semanas antes de morrer, Hergè recebeu a visita de Steven Spielberg. Apaixonado pela sua obra desde criança, queria levar para o cinema as aventuras do jovem jornalista e seus amigos, mas as negociações acabaram com sua morte. Desde 2000 Spielberg vem negociando com a Fundação Hergè, que cuida e protege os personagens fielmente, e muitos boatos cercaram a produção, inclusive colocando Rupert Grint, o Ronny Weasley de Harry Potter, como Tintim. Mas na semana em que se comemorava o centenário de Hergè a notícia veio à tona: Junto com Peter Jackson, o corajoso cineasta de O Senhor dos Anéis, Spielberg dirigiu e produziu o primeiro episódio de uma trilogia em animação 3D, usando uma técnica avançada de captura de movimentos, com os atores Jamie Bell como Tintim e Andy Serkis como o Capitão Haddock. O filme estreou em novembro de 2011 na Europa e aqui no Brasil em janeiro passado... Mas sobre o filme a gente fala outro dia.
Em 1991 a produtora de animação canadense Nelvana levou para as telas 39 episódios de 30 minutos dos mais importantes álbuns de Tintim, numa série que marcou época na animação mundial. Alguns episódios já tinham ganho animações nos anos 60, mas mesmo assim as produções foram tratadas com total inovação. Trilha sonora muito singular, com tema título que SEMPRE me fez arrepiar, aliado a um dos melhores trabalhos de dublagem da Herbert-Richers para o Brasil, com Oberdan Júnior como Tintim e Issac Bardavid como Haddock, torna inesquecível a série, colocando a popularidade de Tintim definitivamente no patamar definitivo dos maiores personagens que esse mundo já viu.
Jamie Bell e Andy Serkiss em "O Segredo do Licorne".
Hergé faleceu em 1983, vítima de anemia e insuficiência respiratória devido ao cancer no pulmão. Sua obra, no entanto, continua viva e pulsante, sem qualquer nuvem que possa lhe toldar o brilho... pois na história dos quadrinhos mundiais poucos autores conseguiram atingir tão profundamente seu público. A penetração de seu personagem mais conhecido no inconsciente coletivo dos belgas e dos franceses... e no do mundo todo, sendo honesto... é algo que continua sendo objeto de estudos 25 anos depois do seu falecimento: mais de dez de livros foram escritos sobre o tema, enfocando tanto sua significativa obra quadrinística como a personalidade de seu criador, destrinchando seu processo de elaboração artística, sua relação com os personagens, o impacto psicológico de sua vida pessoal em sua obra. E tudo isso aumenta ainda mais o fascínio que Tintim conseguiu despertar em seus leitores... uma admiração que parece muito longe de acabar já que o interesse sobre seu trabalho continua despertando no mundo inteiro.
Não bastasse os cenários de nosso planeta, Tintim se aventurou com seus amigos também na lua.
Cronologia:
1907: Nascimento de Georges Remi em Bruxelas, no dia 22 de Maio.
1920: O jovem Georges inicia os seus estudos secundários no colégio Saint-Boniface, em Bruxelas. Como quase todas as crianças, odeia as matérias.
1921: Entra no grupo de escoteiros do colégio onde iria receber o apelido de “raposa curiosa”. Os seus desenhos são publicados em Jamais Assez, a revista da escola e, mais tarde, em 1923, em Le Boy-Scout Belge, a revista mensal dos escoteiros belgas.
1924: É com o nome Hergé... as iniciais de Remi Georges... que ele passa a assinar seus desenhos.
1925: Tendo acabado os seus estudos, Georges Remi vai trabalhar no jornal Le Vingtième Siècle, no setor de Serviço de Assinaturas.
1926: Criação de Totor, CP des Hannetons, um protótipo de Tintim, no Le Boy-Scout Belge.
1927: Georges Remi serve o exército.
1928: Voltando a Bruxelas, Hergé é nomeado redator-chefe do Petit Vingtième, suplemento semanal para jovens do Le Vingtième Siècle. O primeiro número é publicado no dia 1 de Novembro.
1929: No dia 10 de Janeiro, "nascimento" de Tintim e Milú, no Petit Vingtième.
1930: Criação de Quim e Filipe, rapazes de Bruxelas e atores de curtas e completas histórias no Petit Vingtième. Publicação do primeiro álbum de Tintim: Tintin, reporter au pays des Soviets.
1932: Georges Remi casa-se com Germaine Kieckens, secretária do diretor do Vingtième Siècle.
1934: A Casa Casterman, estabelecida em Tournai, na Bélgica, passa a ser a editora das aventuras de Tintim. O encontro de Hergé com um jovem estudante chinês, Tchang Tchong-Jen, marca um rumo criativo decisivo: percebe-se da importância de uma história construída solidamente e da necessidade de se fazer uma pesquisa precisa sobre o tema a ser tratado. Começa então a levar a sério aquilo que antes para ele não era mais do que um jogo.
1935: Para o semanário francês Coeurs Vaillants, Hergé cria uma nova série com novos heróis: Joana, João e o macaco Simão. Cinco álbuns foram publicados.
1939: Devido à sua tomada de posição em favor do povo chinês em O Loto Azul, o criador de Tintim é convidado pela esposa de Chiang Kai-Shek a visitar a China. A guerra iminente na Europa viria a impedir essa viagem.
1940: No dia 10 de Maio, a Bélgica é invadida por tropas alemãs. O Vingtième Siècle e o Petit Vingtième desaparecem. Tintim no país do Ouro Negro, então em curso de publicação, é interrompido por oito anos. Hergé começa outra história, O caranguejo das Tenazes de Ouro, que publica no jornal Le Soir, um dos poucos jornais autorizados pelos nazistas a circular.
1942: O editor da Casterman, tendo em vista a criação de álbuns padronizados (de 64 páginas e a cores), obtém de Hergé os episódios já publicados, adaptados progressivamente a estes novos modelos.
1944: A libertação da Bélgica no dia 3 de Setembro encerra a publicação das aventuras de Tintim no jornal Le Soir. Alguns consideram que tendo publicado num jornal controlado pelos nazistas, Hergé tinha "colaborado" com estes.
1945: O desenhista conclui a publicação dos primeiros álbuns, por ordem, já adaptados às novas normas.
1946: Publicação, no dia 26 de Setembro, do primeiro número da revista Tintin, um novo semanário criado para a juventude por um antigo assistente seu, Raymond Leblanc.
1950: Tendo decidido realizar Explorando a Lua, um episódio das aventuras de Tintim que requeria um trabalho técnico importante, um rigor documental e uma atenção particular, Hergé junta-se com colaboradores e funda os Estúdios Hergé.
1955: Tintim, cujos álbuns se tornam um verdadeiro sucesso mundial, é de tal modo popular que a publicidade se interessa por ele. Hergé realiza, então, uma coleção de figurinhas, na qual Tintim desempenha o papel de apresentador em diferentes domínios do conhecimento humano.
1958: O álbum Tintim no Tibete é terminado, apesar de uma violenta crise pessoal de Hergé.
1960: Tintim faz a sua estréia no cinema e é o jovem belga Jean-Pierre Talbot que encarna o herói em "Tintim e o mistério do Tosão de Ouro". Mais tarde, em 1964, o ator voltaria a desempenhar o papel de Tintim em "Tintim e as laranjas azuis". Georges Remi descobre a arte contemporânea, que se torna uma verdadeira paixão. Separa-se da esposa.
1969: Os estúdios Belvision de Bruxelas produzem um desenho animado de longa metragem a partir do álbum O Templo do Sol.
1971: Quando de uma primeira viagem aos Estados Unidos, Hergé faz questão de conhecer os índios americanos.
1973: As edições Casterman publicam o primeiro volume de Arquivos Hergé. O mítico Tintin au pays des Soviets reaparece quarenta anos depois de ter desaparecido completamente das livrarias. Hergé visita Taiwan, trinta e cinco anos depois do convite oficial que lhe foi feito.
1976: Difusão nas telas de televisão de Moi, Tintin, um documentário sobre o personagem e o seu criador. No dia 29 de Setembro, é inaugurada uma estátua em bronze de Tintim e Milú, em Bruxelas.
1977: Tendo-se pronunciado o divórcio com a sua primeira esposa, Hergé casa-se com Fanny Vlamynck.
1979: O Americano Andy Warhol, artista máximo e criador da Pop Art realiza uma série de quatro retratos de Hergé. O "nascimento" de Tintim comemora-se um pouco por todo o lado. Os cinquenta anos de existência do herói fictício são também celebrados através de uma emissão de selos dedicados à Tintim, a exposição O Museu imaginário de Tintim e a publicação do álbum Cinquante ans de travaux fort gais.
1981: Reencontro emocionante entre Hergé e Tchang-Tchong-Jen, o amigo chinês que o tinha inspirado para O Loto Azul, quarenta e cinco anos antes.
1982: Para festejar o 65º aniversário de Hergé, a Sociedade Belga de Astronomia dá o seu nome a um planetóide descoberto recentemente. O planeta Hergé está situado entre Marte e Júpiter.
1983: Georges Remi, Hergé, falece no dia 3 de Março.
1986: Publicação do álbum Tintin et l'Alph'Art, última aventura de Tintim, ainda por terminar.
1987: Tendo Hergé manifestado a sua vontade de não confiar Tintim a um outro desenhista, a sua esposa Fanny decide substituir os Estúdios Hergé pela Fundação Hergé.
1988: Inauguração, numa estação de metropolitano de Bruxelas, de um afresco de cem metros, com os personagens principais das aventuras de Tintim, a partir de um esboço de Hergé. Acaba a revista Tintim.
1989: Inauguração, no Centro Nacional de Histórias em Quadrinhos e Imagem, em Angoulême, França, um busto de Hergé realizado pelo escultor e amigo Tchang-Tchong-Jen, que inspirou a criação do personagem Tchang. A Fundação Hergé monta uma vasta exposição intitulada Tintin, 60 ans d'aventures, inaugurada em Bruxelas e destinada a dar a volta ao mundo.
1991: A Nelvana do Canadá produz com maestria a série de animação As Aventuras de Tintim, elevando definitivamente a popularidade do personagem em todo o mundo.
Abertura da série de animação da Nelvana, de 1991.
2007: Aproveitando as comemorações dos 100 anos de nascimento de Hergè, será cimentada a primeira pedra do novo museu do autor, em Louvain-la-Neuve, a 25 quilômetros de Bruxelas, na Bélgica... terra natal do criador. Trata-se de um projeto de 15 milhões de euros. Além disso, a capital belga sedia vários eventos dedicados a Hergé, como exposições, retrospectivas, lançamentos de livros e outras festividades.
2012: O primeiro filme de longa metragem depois de 50 anos de Tintim, dirigido por Steven Spielberg e produzido por Peter Jackson.
Continuaremos falando de Tintim e Hergè na sexta feira.
Paz e bem.
Paulo.
"No fundo, o meu único rival internacional é Tintim! Nós somos os pequenos que não nos deixamos apanhar pelos grandes."
Franca (voltando a São Paulo muito em breve), SP, Brazil
Publicitário, Consultor de Marketing, Assistente Social... ou quem sabe mais? Nos anos 90 fui redator de campanhas para Ford, Coca-Cola, Chevrolet e muitas outras empresas cujos anúncios já devem ter visto. Fiz o ensino médio no Mackenzie, faculdade na PUC/SP e Unesp/Franca... mas o que melhor me resume é que sou, acima de tudo, um filósofo da cultura pop.